O Encontro de Mo Yan e Milton Hatoum
Na quinta-feira, 14 de maio de 2026, o Fórum Unesp em São Paulo foi palco de um significativo debate sobre a presença cultural da China no Brasil. Este evento contou com a participação do renomado escritor chinês Mo Yan, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, e do celebrado autor brasileiro Milton Hatoum, membro da Academia Brasileira de Letras. O diálogo entre os dois escritores não apenas destacou suas obras, mas também enfatizou a importância da literatura como um veículo de intercâmbio cultural.
Mo Yan, famoso pela obra “As Rãs”, descreveu Hatoum como “irmão mais velho” e recordou sua visita ao rio Amazonas em 2014, observando como a narrativa de Hatoum reflete a profundidade de suas experiências vividas nas margens do rio. Para Mo Yan, a literatura é uma forma transcendental de conectar diferentes realidades e culturas.
Hatoum, por sua vez, destacou o papel da literatura em eliminar barreiras culturais e linguísticas, ressaltando como a tradução permite que leitores se conectem a histórias de terras distantes, enriquecendo sua compreensão sobre culturas diferentes.

Literatura como Conexão Cultural
A literatura tem a capacidade de servir de ponte entre culturas distintas, e neste encontro, essa ideia foi discutida de forma clara. Através das palavras de Hatoum, foi expresso que a leitura de uma obra situada em uma aldeia da China pode proporcionar ao leitor uma identificação profunda com a cultura e as vivências daquela região. Esse fenômeno evidência a universalidade da experiência humana, que muitas vezes se reflete na literatura.
A Influência da China na Literatura Brasileira
Mo Yan se destaca como um dos escritores chineses mais reconhecidos no Ocidente, especialmente após a adaptação de seu livro “Sorgo Vermelho” por Zhang Yimou em 1987. Esta obra não apenas elevou a visibilidade da literatura chinesa internacionalmente, mas também contribuiu para a construção de um diálogo cultural mais amplo entre a China e o Brasil. O crescimento do interesse pela cultura chinesa no Brasil é, portanto, um fenômeno não apenas literário, mas cultural e econômico.
Traduções e Acesso à Cultura Chinesa
O fenômeno das traduções é crucial para o acesso à literatura e à cultura chinesa. Hatoum e Mo Yan discutiram como as traduções podem abrir novas fronteiras e possibilitar que leitores brasileiros tenham contato com histórias que, de outra forma, permaneceriam desconhecidas. O ato de traduzir não é apenas uma questão linguística; é um processo que envolve a interpretação e adaptação cultural.
A literatura traduzida permite que uma obra ganhe vida em um novo contexto, pois cada cultura tem seu próprio conjunto de valores e experiências. Há um crescente número de autores brasileiros sendo traduzidos para o chinês, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa, que começam a ser reconhecidos fora das fronteiras brasileiras.
A História da Sinologia no Brasil
A sinologia, que se refere ao estudo da China, é um campo ainda em desenvolvimento no Brasil. Ao longo dos últimos 18 anos, a parceria da Unesp com o Instituto Confúcio tem sido fundamental para a promoção do ensino da língua e cultura chinesa no país. Para Luís Antonio Paulino, presidente da fundação, é vital que o estudo da China seja feito com um olhar crítico e autônomo, e não apenas sob a ótica de interpretações externas.
Embora o conhecimento sobre a China esteja crescendo, Paulino reconhece que a tradição da sinologia no Brasil requer um investimento significativo e um compromisso contínuo para desenhar um entendimento mais profundo e coerente sobre a cultura chinesa.
Desafios da Difusão Cultural
Um dos grandes desafios da difusão cultural é superar estereótipos e preconceitos. O professor e pesquisador Giorgio Sinedino destacou que a popularidade da literatura chinesa, apesar de sua crescente presença, ainda enfrenta barreiras significativas. A falta de compreensão da verdadeira essência da cultura chinesa pode levar a uma percepção distorcida, limitando o potencial de um diálogo cultural genuíno.
Geopolítica e Relações Culturais
O encontro também abordou a interseção entre geopolítica e cultura. Durante a coletiva de imprensa, Mo Yan se referiu à importância de um diálogo contínuo entre a China e os Estados Unidos, ressaltando que tanto a China quanto os EUA têm um papel significativo a desempenhar no cenário global. A literatura pode se tornar um meio potente para facilitar esse diálogo, promovendo uma maior compreensão entre diferentes culturas.
Impacto do Curso de Língua Chinesa na Unesp
A inauguração do curso de bacharelado em língua e cultura chinesa na Unesp, programado para o segundo semestre de 2026, representa um marco importante nas relações culturais entre Brasil e China. Este curso visa não apenas ensinar a língua, mas também promover um entendimento mais profundo da cultura, história e trajetória da China no mundo contemporâneo.
Perspectivas para a Literatura Chinesa no Ocidente
A literatura chinesa tem despertado cada vez mais interesse no Ocidente, com editoras investindo em traduções e publicações de obras significativas. O desafio permanece em evitar reducionismos e representações estereotipadas da cultura chinesa, promovendo uma visão mais rica e diversificada sobre o país. Os novos autores chineses, como Suonan Cairang, representam uma nova geração de vozes que ajudam a moldar uma narrativa mais abrangente sobre a China.
O Papel da Literatura no Diálogo Internacional
A literatura não apenas enriquece nossos conhecimentos sobre culturas diversas, mas também atua como uma via essencial de comunicação entre povos. Através da literatura, podem ser compartilhadas experiências, emoções e insights que promovem entendimento mútuo e empatia. Este aspecto foi substancialmente ressaltado durante os debates no Fórum Unesp, à medida que os participantes exploravam as possibilidades que a literatura oferece para a construção de uma ponte entre culturas tão distintas.


