Bactérias benéficas reduziram em cerca de 60% a severidade de doenças causadas por Bipolaris sorokiniana no trigo, segundo pesquisa da Embrapa Meio Ambiente e da Universidade de São Paulo (USP). Os testes foram realizados em condições controladas.
O fungo Bipolaris sorokiniana está associado a doenças como mancha-marrom e podridões em trigo. A notícia da Embrapa, publicada em 20 de outubro de 2026, destaca uma estratégia de controle biológico que atua sobre os microrganismos próximos às raízes.
O estudo foi coordenado por Rodrigo Mendes, da Embrapa Meio Ambiente, em parceria com pesquisadores da USP. Os experimentos envolveram a cultivar BRS Guamirim e solo agrícola coletado em Assis, no interior de São Paulo.

Além da redução da severidade da doença, a pesquisa examinou mudanças na comunidade microbiana da rizosfera e em funções ligadas à proteção das plantas. Os resultados foram publicados na revista npj Biofilms and Microbiomes.
Como as bactérias alteram a comunidade microbiana das raízes
O estudo descreve um controle biológico que não depende de eliminar diretamente Bipolaris sorokiniana. Segundo Caroline Nishisaka, pesquisadora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), os inoculantes reorganizaram a comunidade de microrganismos da rizosfera e recuperaram funções ecológicas ligadas à resistência das plantas.
As análises indicaram que a infecção pelo fungo reduziu a presença de genes associados ao crescimento vegetal e afetou processos de defesa. Com a aplicação de Streptomyces virginiae e Pseudomonas inefficax, aumentaram genes relacionados à resistência a condições de estresse e à produção de substâncias envolvidas na proteção do trigo.
Thierry Pellegrinetti, pesquisador do Cena-USP, relatou que o patógeno também diminuiu a capacidade da comunidade microbiana de produzir compostos naturais que ajudam a combater outros patógenos. Nos tratamentos com bactérias benéficas, essa capacidade foi restaurada, conforme os resultados da pesquisa.
Resultados das bactérias testadas contra Bipolaris sorokiniana
Os pesquisadores avaliaram três microrganismos: Streptomyces virginiae CMAA1738, Paenibacillus ottowii CMAA1739 e Pseudomonas inefficax CMAA1741. Segundo a Embrapa, todos apresentaram características de interesse agrícola, incluindo estímulo ao crescimento das plantas, aumento da disponibilidade de fósforo e ação contra o fungo.
Entre as bactérias testadas, Pseudomonas inefficax teve os resultados mais expressivos. Além de diminuir a severidade da doença, favoreceu o desenvolvimento das raízes e aumentou a disponibilidade de fósforo para as plantas.
A introdução dessa bactéria também reestruturou a comunidade da rizosfera e beneficiou grupos associados à proteção vegetal. Embora representasse menos de 2,5% dos microrganismos detectados ao fim dos experimentos, sua presença desencadeou mudanças amplas no microbioma.
Em alguns tratamentos, a doença ficou menos severa mesmo com a população do fungo estável ou maior. Hélio Quevedo, doutor em Microbiologia Agrícola pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da USP (Esalq-USP), explicou que o patógeno pode permanecer no solo sem causar grandes danos quando o microbioma conserva funções capazes de limitar sua ação.
Métodos de pesquisa e publicação dos resultados
Para comparar os efeitos, a equipe avaliou plantas expostas apenas ao fungo e plantas que receberam tanto o patógeno quanto as bactérias benéficas. Os experimentos utilizaram bactérias isoladas da rizosfera de variedades tradicionais de trigo da Turquia e do Irã.
A caracterização da comunidade microbiana incluiu sequenciamento metataxonômico, que identifica os microrganismos presentes, e metagenômico, voltado à investigação do conjunto de genes e de suas funções. A equipe também empregou qPCR para quantificar o fungo e ferramentas de bioinformática para examinar genes associados ao crescimento e à proteção das plantas.
Os resultados foram apresentados no artigo Bacterial inoculation drives microbiome-mediated resistance to a soil-borne pathogen in wheat, publicado na revista npj Biofilms and Microbiomes, do grupo Nature. O trabalho é assinado por Caroline Nishisaka, Hélio Quevedo, Thierry Pellegrinetti, Fernanda Godoy, Maike Rossmann, Lucas Mendes e Rodrigo Mendes.

